A CONSTRUÇÃO DA NAÇÃO ANGOLANA EM LUEJI
O NASCIMENTO DUM IMPÉRIO
Valéria Maria Borges Teixeira - USP
A busca das diversas raízes culturais de Angola é um elemento essencial no processo de construção da identidade nacional angolana, importante em toda a obra de Pepetela, e que é revelado também em Lueji. Este texto tem por objetivo estudar o romance Lueji (O nascimento dum Império), de Pepetela, analisando como a recriação do mito da rainha lunda[1], tema central da obra, é uma forma de se recontar a História, a formação do Império Muatiânvua, nos fins do século XVI, no nordeste angolano e se recuperar alguns aspectos da cultura tradicional.
O romance pode ser lido como duas histórias separadas por quatro séculos, mas que se conjugam. A história do passado localiza-se em fins do século XVI e a outra, em 1999, portanto, fins do século XX. A primeira conta uma versão do mito de Lueji. A segunda narra o processo de montagem de um bailado, no qual esse mito será encenado (com elementos tradicionais da cultura lunda, como as danças e as músicas), discutindo de maneira sublinear as variantes contraditórias da História e do mito. Ao dialogar com esses dois campos semiológicos, a narrativa destaca a cultura angolana, na medida em que a tradição dos ancestrais, matéria obscurantista para os colonizadores, é colocada como uma das peças fundamentais na estruturação da identidade angolana.
O diálogo intertextual de Lueji com o livro Ethnografia e História Tradicional dos Povos da Lunda, de Henrique de Carvalho, foi fundamental na organização do romance de Pepetela. Este escritor, empenhado em seu projeto literário, recorre a tradição e aos mitos como forma de se imaginar a nação Angola, formando uma simbologia que a represente, entretanto, aquele conta a "lenda" de Lueji como um dado a mais de fonte etnográfica, como era comum na literatura dos viajantes cientistas do final do século XIX.
O estabelecimento de um novo "direito colonial" pela Conferência de Berlim sobre o território africano, em 1884, provocou uma crise nos direitos históricos alegados por Portugal sobre a parte da África que ele há séculos explorava. Datam da mesma época a expedição científica às terras lundenses, chefiada por Henrique de Carvalho, com o propósito de reconhecer a soberania de Portugal sobre esse território, bem como os relatos de viagem geradores do livro sobre a expedição portuguesa ao Muatiânvua.
Os viajantes portugueses do século XIX, ainda influenciados pelos ideais iluministas, em cuja política se inseria o interesse científico, precisavam manter um contato com as sociedades tradicionais para melhor explorá-las, embora justificassem essa aproximação dizendo levar o progresso e a civilização aos povos "selvagens".
Apesar de o relato de Henrique de Carvalho tentar ser fiel a tradição oral e a História do antigo Império lundense a narrativa do expedicionário, derivada de influências positivistas, nomeia a história sagrada dos lundas, portanto mito, de lenda. O positivismo baniu da historiografia tudo o que não podia ser "comprovado" e a História, para essa corrente de pensamento, era gerida pela irreversibilidade dos acontecimentos produzidos num tempo linear. Sendo assim, o mito, por ter como um dos seus fundamentos atrelados a reversibilidade, a reatualização das histórias num tempo cíclico, foi deixado de lado, passando a ser classificado como "lenda", entendida, aqui, no sentido de "história inventada".
A obra Lueji, editada em 1989, ao se relacionar com outra escrita em fins do século XIX e com a tradição oral, vai fazer uma leitura diferenciada da lenda e da História contidas no livro Ethnografia e História Tradicional dos Povos da Lunda, bem como das histórias orais angolanas. Pepetela ao fazer uma transposição do mito de Lueji para a escrita tenta evocá-lo, pois a narrativa mítica, enquanto espaço do sagrado, do oral e do coletivo, quando individualizada e retirada de seu contexto se profaniza.
Diante da impossibilidade da transferência da narrativa mítica para a escrita, o texto de Pepetela tenta evocar o mito de Lueji e se diferencia portanto, da lenda narrada por Henrique de Carvalho, embora ambas as narrativas sejam transposições do mito para a escrita. Nesse sentido, o contraste que se estabelece entre os dois textos, quando enfocam a "história tradicional lunda" ou mito de Lueji, não fica restrito a um critério classificatório que os nomeie mito ou lenda, pois aquilo que mais os marca são as perspectivas dos escritores sobre a cultura lunda e a forma como eles a representam. O texto de Pepetela se diferencia do relato de viagem que insere as "histórias tradicionais" como um dado a mais de fonte etnográfica para compor o ambiente científico tão caro aos exploradores naturalistas. O romance Lueji valoriza a cultura tradicional à medida que tenta recompor o contexto da ancestralidade lundense, retratando a origem da formação étnica do que viria a ser o futuro Império Lunda, a linha sucessória do poder, a organização política, social e espacial em torno da capital, Mussumba do Muatiânvua (onde se encontra Kalanhi, a cidade sagrada dos Lundas), as cerimônias rituais, as crenças, o mito dos heróis civilizadores Lueji e Ilunda, enfim, toda a tradição cultural dos povos do nordeste de Angola. O texto de Pepetela torna a narrativa descritiva do viajante português num texto ritmado que se aproxima da oralidade poética das narrativas míticas. Ao se apropriar do mito, através da tradição oral, e da lenda, via relato de Henrique de Carvalho, o escritor angolano tenta evocar o mito a partir de mecanismos literários que reinventam esse mito e transformam-no em uma história ou História, nas quais se reverenciam a cultura tradicional e o passado angolanos.
O que também faz de Lueji um livro recriador de uma lenda e História, narradas por Henrique de Carvalho, é a construção de uma narrativa que se passa no futuro, pois é ela que ilumina o mito da rainha lunda e o Império Muatiânvua, ou seja, ao representar a história ancestral angolana ela termina por valorizá-la, porque também debate as negações que o colonialismo fez das tradições lundenses.
O romance apresenta marcas da narrativa da contemporaneidade e ao trabalhar com séries temporais descontínuas pode ser lido como duas histórias: uma que se passa no século XVI, que é a recriação do mito Lueji e narra a formação do Império Lunda e, a outra, que se passa no século XX e conta a montagem do bailado que representa esse mito. Pepetela dialetiza o tempo à proporção que a história do passado ganha importância quando lida pela do futuro, ou em outras palavras, o passado somente é valorizado quando reinterpretado criticamente por um outro tempo.
O escritor angolano ao introduzir o texto de Henrique de Carvalho, Ethnografia e História Tradicional dos Povos da Lunda, insere na literatura a História para questionar esta última. Assim, por intermédio de alguns mecanismos ficcionais da pós-modernidade, ele "desmonta" o livro do explorador, através do qual estruturou seu romance, para criticar, de acordo com a concepção de Linda Hutcheon, implícita ou explicitamente os fundamentos daquilo que foi inscrito:
(...) a arte pós-moderna é, ao mesmo tempo, intensamente auto-reflexiva e paródica, e mesmo assim procura firmar-se naquilo que constitui um entrave para a reflexividade e a paródia: o mundo histórico (...).[2]
A obra Lueji, por tudo isso, se estrutura de forma muito interessante, pois ao mesmo tempo em que trabalha com estruturas da tradição oral organiza seu texto com procedimentos ficcionais da contemporaneidade.
A narrativa pode ser vista como vários encaixes que se interligam. São duas histórias separadas por quatro séculos, mas que em vários momentos da diegese se justapõem. É como se a história do mito se sobrepusesse a do futuro, criando um só tempo. A quebra dos nexos lógicos e as variações bruscas das ações, muitas vezes, unem tempos e espaços diferentes, podendo o leitor compreender e separar as duas histórias somente por meio da sintaxe, das tematizações ou mesmo pelos nomes dos personagens. A seqüência narrativa é destruída de forma ostensiva no decorrer de todo o texto. A repetição de tal procedimento da ficção contemporânea explicita menos um propósito de o autor escamotear uma ação do seguimento narrativo mas, revela mais uma pretensão de o escritor quebrar a verossimilhança textual causando estranhamento ao leitor e o levando a uma maior participação no jogo da reflexão literária.
A sobreposição dos tempos é uma constante em toda a obra, como se houvesse um tempo mítico a unir um passado a um futuro, criado no presente. O romance ao realizar a união temporal via estrutura textual e através dos conteúdos temáticos marca a perspectiva de Pepetela sobre o tempo – o presente se realiza entre a retrospecção da história ou História e o tempo prospectivo.
O percurso de construção de identidade da protagonista Lu, também se realiza na conjugação desses tempos. Ela abandona a Europa e volta a Angola degradada pela guerra para fazer um caminho de escavação em busca do passado angolano. Para realizar este trabalho ela pesquisa a História no Centro de Documentação, em Luanda, e no Museu do Dundo, na Lunda. Porém, as suas incursões históricas não ficam somente presas aos livros e objetos. Lu vai em busca das fontes orais; para tanto, procura a avó de descendência lunda em Benguela, como também conversa com os habitantes da Lunda na sua garimpagem pelo passado. O bailado que Lu monta sobre o mito de Lueji é uma volta às raízes angolanas, mas mais do que isso, parece ser um encontro consigo mesma: ela por ter uma avó lunda, depositária de tradições, se considera uma descendente de Lueji. É como se ela ao abandonar a Europa procurasse a sua identidade entre Lunda e Luanda, tradição e modernidade, Lueji e Lu, passado e futuro. Para tanto, é na interação do passado com o presente e futuro, que a identidade de Lu vai se construindo.
À medida que as histórias do passado e do futuro vão se desenvolvendo, mais elas vão se emparelhando, podendo assim, o significado do texto só ser compreendido na leitura de uma história associada à outra.
A "auto-referência" da enunciação que se instaura em Lueji, como recurso da ficção da pós-modernidade, escancara as contradições que subjazem a construção do romance. Durante o processo de montagem do bailado sobre o mito de Lueji, na história do século XX, o narrador-escritor e os personagens discutem, metalingüisticamente, a respeito das variações do mito. Eles refletem criticamente sobre o fazer artístico, os processos da escrita e a falácia da "verdade histórica". Nesse sentido, o romance se duplica e se auto-referencia, pois ele, como versão do mito de Lueji, também discute as possíveis traduções do mito, além de montar uma outra história relativa à rainha lunda (bailado) dentro de seu texto.
O romance indica a forma como foi construído, pela via da metalinguagem, pois discute os elementos que deram origem à matéria narrada, ou seja, as versões do mito e da História. Além disso, o autor implícito ao apresentar uma personagem-leitora, pesquisadora do mito de Lueji e das tradições lundas, faz um paralelo com o autor Pepetela leitor de Henrique de Carvalho e outros historiadores e antropólogos como Bastin, Calder Miller, Redinha, Vansina. Nesse sentido, a história também se repete, revelando que as fontes temáticas utilizadas pela personagem-leitora, Lu, para montar o bailado sobre o mito de Lueji foram as mesmas utilizadas pelo escritor angolano.
As versões sobre a História angolana podem ser observadas nas reinvenções do romance e na própria estrutura formal dele. O descentramento da narração da terceira para a primeira pessoa possibilita que um mesmo acontecimento seja contado de uma outra maneira, dando a cada narrador a oportunidade de enunciar a sua versão da história ou História. No entanto, quando o enunciador inscreve sua fala e diz “AGORA SOU EU QUE FALO, EU, NDONGA”, querendo manifestar a sua versão como se ela fosse única, assim mesmo ela traz falas subjacentes à sua voz:
“AGORA SOU EU QUE FALO, EU, NDONGA,
Filho e neto e bisneto e trisneto de Cassanje, o jaga dos Imbangala, descendente directo de Kinguri, o primeiro, e que um dia também serei Cassanje.
Muitas gerações passaram desde que Tchinguri abandonou a Lunda e se tornou Kinguri. Tantas gerações passaram que a memória daqueIes tempos se toldou e muitos de nós, Imbangala, acabámos por aceitar as estórias contadas pelos velhos lundas, esses mentirosos que se reúnem no njango para fumar liamba e inventar versões cada vez mais favoráveis sobre o passado, (...). Mas eu sei o que passou, a tradição foi transmitida de pais para filhosassim como o lukano do chefe (...)
E o que realmente passou foi assim:
Kondi morreu quando Kinguri era muito pequeno e este não podia governar, apesar de ser o herdeiro. Os Tubungo escolheram Lueji, mais velha, para regente do irmão, enquanto ele fosse menor. (...).
Kinguri tinha agora força para defrontar o próprio Nzambi-ya-Meia, o senhor das águas, que encontrou no Cassai. Nzambi-ya-Meia provocou uma tempestade enorme quando Kinguri e a sua gente atravessavam o rio. Mas a magia era forte e eles resistiram aos ventos fortíssimos e às ondas gigantescas. E caminharam para Ocidente. Até chegarem aqui, à terra dos Imbangala, onde Kinguri foi rei. A ele sucedeu Caluxingo.
Esta é a verdade verdadeira, não a que os lundas contam.(...).”[3]
Nesse fragmento textual o narrador "Ndonga" dá uma versão para a história de Tchinguri, diferente daquela que a tradição oral diz: “Tchinguri feriu seu pai Kondi e este antes de morrer o deserdou, passando o poder da Lunda para sua filha Lueji”. O descentramento de vozes como recurso ficcional serve para instalar a contradição na narrativa, colocando em dúvida uma verdade única que até então se formulava sobre a história de Tchinguri. Quando Ndonga toma a voz para si dizendo "Agora", é como se outros já tivessem falado em um outro tempo, portanto, ele se nomeia "neste instante" como alguém que vai relatar "o que realmente aconteceu". Ele se atribui uma autoridade ("esta é a verdade verdadeira") para enunciar uma outra história diversa das "palavrasmentirosas" dos lundas, como se o seu relato fosse o verdadeiro. Quando o personagem diz "mas eu sei o que passou" ele tenta mascarar a voz do grupo étnico ao qual pertence, o que dentro da teoria bakhtiniana[4] do discurso seria impossível, pois desde o momento em que se nasce o ser já se constitui como homem social que carrega o discurso de seu grupo. Sendo assim, a voz de Ndonga está entrecruzada pela de seu grupo, os Imbangala, os mesmos que lhe transmitiram a história. A polifonia que se produz no texto é marcada pela polêmica, pois a voz de Ndonga, aqui, está se embatendo com a história, que também é composta por vozes, polemizando no nível das idéias.
Os textos que formam a história do passado se aproximam da poeticidade das narrativas míticas – a oralidade imprime ritmo às palavras, cujas semânticas evocam a criação do mundo, dos animais, das plantas, descrevendo a genealogia de um povo. As repetições lembram a fala de um contador de histórias da antigüidade. O português parece ter sido "reinventado" para criar uma língua fictícia para o século XVI que evocasse uma africanidade, menos pela forma, dada a opção do autor por escrever em português do século XX, mas, mais pelo conteúdo, que remete a um universo mítico: não é uma reinvenção da escrita daquele tempo, mas a tentativa de se reinventar aquele tempo pela escrita.
A narrativa do futuro, no romance, é um exemplar da expressão polifônica – a polêmica, como efeito de sentido, se instaura através das vozes dos personagens que se cruzam e contrapõem. O texto provoca a polêmica com o intuito de expandir possíveis sentidos a respeito de "animismos", "obscurantismos" e "tradições", ainda que se possa supor que algumas das posições assumidas por alguns personagens não se enquadrem na visão de mundo de Pepetela. Ao criar um debate sobre os temas, o escritor faz com que várias vozes sejam ouvidas, pois elas revelam diferentes opiniões sobre a cultura angolana. Decorre disso tudo, vários personagens se posicionando de maneiras diferentes: um crente dos costumes lundas, a protagonista Lu como seguidora e pesquisadora das tradições, Jaime como um polêmico que, também, tende a seguir algumas crendices e Cândido que é o oponente de todos eles, pois se revela um cético cientificista. Ao instaurar o embate, o texto parece querer expor as culturas regionais e mostrar como é o olhar das pessoas que as compõem, pois há moradores de várias regiões de Angola. Nesse sentido, ele é provocador, pois tenta levantar questões mais amplas a partir de uma simples discussão: ele verifica como Luanda se posiciona diante da cultura tradicional através de um "grupo de intelectuais". O personagem Cândido, representante "materialista", acredita que somente o "espírito científico" pode "purificar" Angola do atraso "obscurantista", enquanto os outros personagens agem de forma menos cética e parecem ter uma solução menos maniqueísta, na qual se possa estabelecer uma convivência e um diálogo entre a cultura citadina luandense e a tradicional.
Através da discussão dos personagens, o texto repetidas vezes estampa e reflete a questão da cultura tradicional regional conjugada com a de Luanda. Neste sentido, ele mais uma vez se referencia, pois o romance como um todo realiza esta mesma discussão.
Ironicamente o romance, ao sugerir que o bailado sobre o mito de Lueji pudesse se inscrever na "corrente do realismo animista", faz uma crítica ao pensamento eurocentrista, que englobava todo o saber tradicional africano na vala comum da idéias feiticistas e obscurantistas, sem reconhecer nele um conhecimento e um valor social. A construção do bailado somente com elementos da cultura angolana explicita a "diferença" dessa cultura perante a européia, que durante séculos tentou anular a História da África.
A recuperação das tradições é a ênfase de Lueji sendo representada na história do século XVI e novamente evidenciada na encenação da História e do mito dos antepassados, na história do século XX. No romance, a cultura lunda, como tradição genuína do nordeste angolano, deve ser "recuperada" no sentido de ser mesclada a um outro espaço, no qual se possa criar uma síntese dos diversos "pedaços de culturas" de Angola, através das raízes e daquilo que se apresenta como a cultura citadina de Luanda.
A montagem do bailado, na história do futuro, em Lueji, dinamiza as tradições lundas, na medida em que as atualiza em outro tempo. A memória angolana luandense, que busca as tradições, marca a fusão de uma História reescrita a uma nação futura, cuja identidade pode se afirmar pelas várias formas de representações de uma cultura e de um povo.
A concepção de “tradicional”, no romance, não pode ser compreendida como conservadorismo, pois é ela que faz a cultura angolana, embora formada por inúmeras facetas, se diferenciar de outras culturas, principalmente as ocidentais.
A tematização das tradições e da História de Angola é uma das maneiras encontradas por Pepetela, para enunciar o seu projeto político literário de construção da nação, pois o escritor tem a literatura como um instrumento para refletir sobre seu país. Ele procura referenciais na cultura tradicional interligando-os às outras fontes que compõem a diversidade cultural de Angola para construir a angolanidade. O escritor em Lueji, dessa maneira, busca as raízes da multifacetada cultura do país, tentando formar uma cultura nacional que tem como principal traço as diferenças e não as uniformidades.
A ficção de Pepetela, como instrumento cultural provocador da consciência crítica das pessoas, cria imagens de um país, com as quais elas possam se identificar, produzindo uma identidade nacional. O espaço textual de Lueji pode ser interpretado como metáfora da construção da identidade nacional, pois liga um passado distante a um futuro, recupera uma tradição para articulá-la com a cultura citadina de Luanda, recria personagens que simbolizam os heróis civilizadores das histórias tradicionais, retoma um tempo e espaço conservados pela memória coletiva, enfim, através de tudo isso, tenta fundar uma nação angolana imaginada.
O projeto político literário de Pepetela de construção da nação, da busca da angolanidade, não pode ser compreendido como uma “utopia inalcançável”. O empenho do autor em recontar a História angolana faz parte de um todo maior que revisa o passado não para enaltecê-lo, mas para criticar todas as formas de poder e tentar repensar a Angola atual. É pelo contraponto passado/presente que a literatura desse escritor planeja o futuro da nação. Esse futuro, no entanto, não se assemelha a algo distante, mas sim como uma “utopia possível”, que se constrói dia-a-dia, próxima do que Münster identifica como o “espírito utópico” em Ernst Bloch[5].
Em Lueji, a história construída no futuro redescobre a do passado fazendo emergir significados que só podem ser entendidos na ligação dos dois tempos. A História lunda, revista pela memória, une o passado sonegado pelo colonialismo português a um futuro, no qual se desponta um país com suas tradições e História.
Referências Bibliográficas:
AGUESSY, Honorat et alii. Introdução à cultura africana. Lisboa: Edições 70, 1980.
BAKHTIN, Mikhail Voloshinov. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
_____. Marxismo e filosofia da linguagem. Trad. Michel Lhud e Yara F. Vieira.6.ed. São Paulo: Hucitec, 1992.
CARVALHO, Henrique A. Dias de. Etnographia e história tradicional dos povos da Lunda. Lisboa: Imprensa Nacional, 1890. (Expedicção Portugueza ao Muatiânvua 1884-1888).
HOBSBAWN, Eric et alii. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
MÜNSTER, Arno. Ernest Bloch - Filosofia da práxis e utopia concreta. São Paulo: Editora UNESP, 1993.
PEPETELA. Lueji (O nascimento dum império). Porto: Edições Asa/União dos Escritores Angolanos, 1989.
[1] Lueji, heroína civilizadora, é personagem do mito de origem dos povos lundas e se diferencia da lenda da Rainha Lueji. Observa-se que o mito quando transposto para a escrita e retirado de seu contexto se profaniza, tornando-se lenda.
[2] Linda HUTCHEON. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção, p.12.
[3] PEPETELA. Lueji (O nascimento dum Império), p. 417-419.
[4] M. Voloshinov BAKHTIN. Marxismo e filosofia da linguagem, p. 146.
[5] Arno MÜNSTER. Ernest Bloch - Filosofia da práxis e utopia concreta, p. 19.